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quarta-feira, 5 de novembro de 2008

O abalo dos muros - Frei Betto - in: Outro Brasil - LPP

O abalo dos muros

Frei Betto


Em 2009 faz 20 anos da queda do Muro de Berlim, símbolo da bipolaridade do mundo dividido em dois sistemas: capitalista e socialista. Agora assistimos ao declínio de Wall Street (Rua do Muro), na qual se concentram as sedes dos maiores bancos e instituições financeiras.

O muro que dá nome à rua de Nova York foi erguido pelos holandeses em 1652 e derrubado pelos ingleses em 1699. New Amsterdam deu lugar a New York.

O apocalipse ideológico no Leste europeu, jamais previsto por qualquer analista, fortaleceu a idéia de que fora do capitalismo não há salvação. Agora, a crise do sistema financeiro derruba o dogma da imaculada concepção do livre mercado como única panacéia para o bom andamento da economia.

Ainda não é o fim do capitalismo, mas talvez seja a agonia do caráter neoliberal que hipertrofiou o sistema financeiro. Acumular fortunas tornou-se mais importante que produzir bens e serviços. A bolha especulativa inflou e, súbito, estourou.

Repete-se, contudo, a velha receita: após privatizar os ganhos, o sistema socializa os prejuízos. Desmorona a cantilena do “menos Estado e mais iniciativa privada”. Na hora da crise, apela-se ao Estado como bóia de salvamento na forma de US$ 700 bilhões (5% do PIB dos EUA ou o custo de todo o petróleo consumido em um ano naquele país) a serem injetados para anabolizar o sistema financeiro.

O programa Bolsa Fartura de Bush reúne quantia suficiente para erradicar a fome no mundo. Mas quem se preocupa com os pobres? Devido ao aumento dos preços dos alimentos, nos últimos dozes meses o número de famintos crônicos subiu de 854 milhões para 950 milhões, segundo Jacques Diouf, diretor-geral da FAO.

Quem pagará a fatura do Proer usamericano? A resposta é óbvia: o contribuinte. Prevê-se o desemprego imediato de 11 milhões de pessoas vinculadas ao mercado de capitais e à construção civil. Os fundos de pensão, descapitalizados, não terão como honrar os direitos de milhões de aposentados, sobretudo de quem investiu em previdência privada.

A restrição do crédito tende a inibir a produção e o consumo. Os bancos de investimentos põem as barbas de molho. Os impostos sofrerão aumentos. O mercado ficará sob regime de liberdade vigiada: vale agora o modelo chinês de controle político da economia, e não mais o controle da política pela economia, como ocorre no neoliberalismo.

Em 1967, J.K. Galbraith chamava a atenção para a crise do caráter industrial do capitalismo. Nomes como Ford, Rockefeller, Carnegie ou Guggenheim, exemplos de empreendedores, desapareciam do cenário econômico para dar lugar à ampla rede de acionistas anônimos. O valor da empresa deslocava-se do parque industrial para a Bolsa de Valores.

Na década seguinte, Daniel Bell alertaria para a íntima associação entre informação e especulação, e apontaria as contradições culturais do capitalismo: o ascetismo (= acumulação) em choque com o estímulo consumista; os valores da modernidade destronados pelo caráter iconoclasta das inovações científicas e tecnológicas; lei e ética em antagonismo quanto mais o mercado se arvora em árbitro das relações econômicas e sociais.

Se a queda do Muro de Berlim trouxe ao Leste europeu mais liberdade e menos justiça, introduzindo desigualdades gritantes, o abalo de Wall Street obriga o capitalismo a se repensar. O cassino global torna o mundo mais feliz? Óbvio que não. O fracasso do socialismo real significa vitória do capitalismo virtual (real para apenas 1/3 da humanidade)? Também não.

Não se mede o fracasso do capitalismo por suas crises financeiras, e sim pela exclusão - de acesso a bens essenciais de consumo e direitos de cidadania, como alimentação, saúde e educação -, de 2/3 da humanidade. São 4 bilhões de pessoas que, segundo a ONU, vivem entre a miséria e a pobreza, com renda diária inferior a US$ 3.

á, sim, que buscar, com urgência, um outro mundo possível, economicamente justo, politicamente democrático e ecologicamente sustentável.

- Frei Betto é escritor e assessor de movimentos sociais, autor de “Calendário do Poder” (Rocco), entre outros livros.


Fonte: http://alainet.org/active/26757=ES


http://www.lpp-uerj.net/outrobrasil/exibir_artigos_entrevistas.asp?Id_sub_artigo=339&Id_artigo=2

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Taxa de juros e ideologia do Cassino financeiro

17/10/2008 - Ceci Juruá

Taxa de juros e ideologia do Cassino financeiro

Ceci Juruá


As altas finanças globalizadas aliam ao poder do dinheiro o chamado soft power, isto é uma ideologia que justifica suas práticas, lícitas ou não, e que se espalha por universidades, empresas de consultoria e imprensa falada e escrita. Na retaguarda desta ideologia, o mundo dos negócios funciona distribuindo contratos e títulos honoríficos, e posando de mecenas da educação e cultura. Se necessário, outros meios podem ser acionados como aqueles de que nos fala J. Perkins em Confissões de um Assassino Econômico, ou F. Sounders em Quem paga a conta ?,


Por esses túneis sombrios e canais bem irrigados, disseminam-se algumas inverdades, particularmente no que diz respeito ao uso da taxa de juros para fins de política econômica. No Brasil, a tese preferida dos Chicago?s boys é que os juros devem ser aumentados sempre que houver ameaças inflacionárias à vista. Mas de qual juros eles falam :


-daqueles que remuneram nossa poupança, de 0,5% ao mes ?

-do cartão de crédito que cobra mensalmente 10% ou mais ?

-do empréstimo consignado, 2% mensais e 30% anuais?

-do crédito bancário às empresas, em torno de 50% ao ano ?

-do financiamento de automóveis, 35 % anuais ?


Veja, caro leitor, que não há uma única taxa de juros no sistema econômico. Há uma multiplicidade delas, em todos os países. Quando os manuais de Economia afirmam que a taxa de juros é um instrumento de combate à inflação, porque « quanto maior for a taxa de juros, menor será a demanda de moeda », eles estão se referindo, certamente, à taxa média vigente na economia. Como em todos os modelos, os conceitos são abstratos e não podem ser aplicados dogmaticamente.


O pessoal da engenharia financeira não sabe disso, creio eu. E fica insistindo que é melhor aumentar os juros ? aqueles que incidem sobre a dívida do governo - para prevenir inflação. Essa saída é muito fácil, porque assim a conta recai sobre os trabalhadores. Nós pagamos impostos ao governo para que o governo pague juros aos banqueiros. Mesmo assim a conta não fecha. Em agosto, depois de transferir uma montanha de juros aos bancos, a dívida do governo aumentou R$ 18,8 bilhões! Dezoito bilhões a mais de dívida pública em um único mês ! Em setembro será pior, pois o Banco Central já aumentou a SELIC.


Mas aquilo que se cobra sobre a dívida do governo, a taxa SELIC, será este o melhor instrumento para prevenir a inflação ? Penso que não.


Na verdade as taxas de juros que auxiliam no combate à inflação são as que incidem sobre os gastos dos consumidores e as que recaem sobre investimentos das empresas, por duas razões. Primeiro, as pessoas fazem menos empréstimos e compram menos a crédito quando os juros aumentam. Segundo, as empresas investem menos quando os juros minguam os lucros. Esses dois tipos de taxa é que funcionam como repressores da demanda e como instrumentos de combate à inflação. No Brasil, eles já são abusivamente elevados e por isto tornam-se ineficazes na luta anti-inflacionária. Para reprimir demanda é preciso conter o crédito, como acaba de anunciar o Ministro da Fazenda.


Além do mais, ainda se pode acreditar que a taxa SELIC «divulgada pelo Comitê de Política Monetária (COPOM). tem vital importância na economia, pois as taxas de juros cobradas pelo mercado são balizadas pela mesma » ?. Sinceramente não creio nisso. A SELIC é calculada com base no custo médio das operações lastreadas em títulos públicos federais e só se aplica aos títulos do governo, beneficiando tão somente os rentistas da dívida pública. Assim, a SELIC provoca e amplia o déficit público e, nesse sentido, pode ter efeitos inflacionários de alto risco !


A SELIC abusiva tem outros efeitos, perniciosos ao cidadão, funcionais ao capital. Quando o dinheiro dos impostos é direcionado aos bancos, o governo fica sem recursos para aplicar em gastos sociais, saúde e educação por exemplo. Qual a saída ? Privatizar, respondem os Chicago?s boys. Eis o que eles procuram com os aumentos sucessivos da SELIC: deixar o governo à mingua para justificar mais privatizações e lucros bilionários para o pessoal do Cassino Capitalista, no melhor estilo do american way of life !

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*Ceci Juruá é economista, membro do projeto Outro Brasil/LPP-UERJ, doutoranda do Programa PPFH, ex-professora da Universidade do Brasil e da Universidade Católica de Brasília. Foi Conselheira por dois triênios do CORECON-RJ e diretora do Sindicato dos Economistas do Rio de Janeiro


http://www.lpp-uerj.net/outrobrasil/exibir_artigos_entrevistas.asp?Id_sub_artigo=342&Id_artigo=1