terça-feira, 11 de novembro de 2008

Os direitos humanos, o esporte e a paz

Fidel Castro

Chamou-me a atenção que nenhuma de minhas amigas, as agências de informação, dissessem uma palavra no sábado sobre a grande avaliação que a Unesco fez sobre a educação em Cuba, que, apesar das ações dos Estados Unidos, ultrapassa os níveis atingidos pelos demais países da região, como se isso não tivesse nada a ver com o respeito aos direitos humanos.

Todas insistiam em qualificar a Reflexão como uma diatribe contra a Europa. Um despacho da agência chinesa Xinhua não o interpreta dessa forma. Transcreve os argumentos com fidelidade.


Utilizei os serviços da internet para analisar a palavra diatribe. Resposta: “Discussão ou escrito violento e injurioso contra pessoa ou coisa”.

Peço definição de injúria. Resposta: “Fato ou dito contra razão e justiça”.

Será que não foi calúnia a afirmação, milhões de vezes repetidas, que em Cuba se tortura e se violam os direitos humanos? Nunca torturamos ninguém, nem privamos alguém da vida por métodos extrajudiciais.

Se a Europa toma medidas diplomáticas contra Cuba alegando defender esses direitos, por que não adotam essas medidas contra os Estados Unidos pelo genocídio de Bush no Iraque e as milhares de pessoas presas sem julgamento e torturadas durante anos ali e em qualquer parte do mundo?


É curioso que um órgão da imprensa espanhola, que sem dúvida é diametral e abertamente oposto ao socialismo, menciona o reconhecimento da Unesco aos resultados do sistema educacional de Cuba, e inclui textualmente minha afirmação: “Nenhum país onde os direitos humanos sejam sistematicamente violados atingiria tão elevados níveis de conhecimentos”.

Enquanto escrevo esta Reflexão, às três da tarde, vejo pela televisão a partida de futebol entre Espanha e Itália. Estão zero a zero depois de uma hora de jogo. O Rei da Espanha contempla satisfeito o desafio. Não terminou ainda. São, sem dúvida, temíveis equipes.

Peço para sintonizar a televisão para ver a partida de futebol entre a equipe olímpica de Cuba e uma forte seleção das universidades dos Estados Unidos. Ontem pela noite, observei o choque entre as equipes olímpicas de boxe de Cuba e da França. Os atletas que representam esta são excelentes, como os boxeadores cubanos. Nosso público, bem instruído em questões esportivas, é imparcial, respeitoso e objetivo. Houve paz, hinos e bandeiras içadas, apesar do afã dos europeus e dos ianques para subornar e comprar atletas cubanos.


Agradeço a todos os mencionados por haverem fornecido matéria prima para esta Reflexão.

Talvez nos próximos dias dedique este tempo a outras atividades.

Tradução: Brasil de Fato

Fonte: http://alainet.org/active/24869&lang=es

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

TRIBUNAL POPULAR: O ESTADO BRASILEIRO NO BANCO DOS RÉUS


Por Eduardo Sá, da redação - Retirado do Fazendo media 06.11.2007

No dia 10 de dezembro de 2008 a Declaração Universal dos Direitos do Homem realizada pela ONU completa 60 anos. Também é em 2008 que o Brasil está comemorando os 120 anos da abolição formal da escravidão, os 20 anos da Constituição Federal e a maioridade do Estatuto da Criança e do Adolescente, fatores que compõem as palavras mortas da democracia instituída no país.

Devido à omissão e violação dos direitos fundamentais da grande maioria dos cidadãos brasileiros por parte do Estado, movimentos sociais, entidades e pessoas preocupadas com a conjuntura do país estão organizando o Tribunal Popular: o Estado Brasileiro no Banco dos Réus.

O evento ocorrerá entre os dias 4 e 6 de dezembro em São Paulo, onde será simulado um Tribunal no qual o Estado será julgado pelas mortes de milhares de brasileiros nesses últimos anos e suas políticas implementadas em detrimento da população pobre.

Fatos como a chacina no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, em 2007; as mortes em 2006 em São Paulo somadas às que ocorrem incessantemente, na maioria das vezes de jovens negros, serão denunciados. Também serão julgadas no Tribunal as desumanas condições no sistema carcerário na Bahia, estado onde também morrem por execuções sumárias centenas de jovens pobres e negros; e a criminalização dos movimentos sociais, sindicais, quilombolas, dentre outros.

Para um dos organizadores responsáveis pela comissão no Rio de Janeiro, Maurício Campos, da Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência, “o Tribunal surgiu como iniciativa de movimentos sociais que enfrentam no dia a dia o terror das violações sistemáticas aos direitos humanos das populações pobres da cidade e do campo, e dos seus movimentos organizados”.

“Chegamos à conclusão que não poderíamos deixar passar em branco diversas datas importantes desse ano, como os 20 anos da Constituição de 1988 e os 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, da ONU. Queremos deixar claro que os direitos garantidos na Constituição e nas convenções internacionais que o Brasil assinou são violados todo dia pelo próprio Estado, ou seja, o próprio Estado se nega na prática como democrático e de direitos. Por isso é o próprio povo, principalmente a parte do povo mais pobre e mais espezinhada em seus direitos, que deve julgar o Estado e organizar-se para mudar essa realidade de desrespeito e opressão”, explica Maurício.

Mobilização começa com discussão sobre violência contra ocupações urbanas
Até a realização do tribunal haverá atividades de mobilização nas quais serão colocadas em pauta diversas questões relacionadas aos direitos humanos no Brasil. No dia 22 de outubro, na Faculdade de Direito da USP, houve o lançamento do evento com o debate “A violência do Estado Brasileiro contra os que lutam por moradia: movimentos sem-teto, comunidades despejadas e o povo da rua”.

Pelo menos mais dois debates estão programados até a data do evento. As atividades discutirão a criminalização de estudantes e do movimento estudantil e também a luta por direitos indígenas e ambientais, ambos em São Paulo. Nos dois outros estados eixos do evento, Rio de Janeiro e Bahia, estão em planejamento atividades, bem como a transmissão simultânea do Tribunal de São Paulo, nos dias 4, 5 e 6 de dezembro.

Até agora estão confirmados para as sessões do Tribunal personalidades como o presidente da Abra (Associação Brasileira de Reforma Agrária) Plínio de Arruda Sampaio; os juristas Nilo Batista, João Tancredo, Hélio Bicudo e Aton Fon Filho; o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ); Wagner Santos, sobrevivente da chacina da candelária; a psicanalista Maria Rita Kehl; o filósofo Paulo Eduardo Arantes; o coordenador do fórum de ex-presos políticos Ivan Seixas; o músico Marcelo Yuka; a jornalista Maria Luisa Mendonça; o sindicalista Valdemar Rossi, dentre outros.


Para mais informações acesse o blog http://www.tribunalpopular2008.blogspot.com

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

As contradições; a crise financeira; o Estado; a esquerda; a direita - Daniel Bensaïd - entrevista

http://www.agenciacartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=15359


ENTREVISTA - DANIEL BENSAÏD

“Passamos da fase dos slogans simpáticos dos fóruns sociais”

De passagem pelo Brasil, filósofo francês concede entrevista exclusiva à Carta Maior, na qual analisa a crise financeira, comenta as situações dos EUA e da Europa e aponta os desafios para a esquerda construir uma alternativa ao modelo atual.

Maurício Thuswohl
Data: 05/11/2008

RIO DE JANEIRO - No Brasil para uma série de palestras que acompanham o lançamento de um de seus livros - Os Irredutíveis, teoremas de resistência para o tempo presente (Ed. Boitempo) - o cientista político e filósofo francês Daniel Bensaïd, em entrevista exclusiva à Carta Maior, analisa a crise financeira global e seus possíveis desdobramentos. Durante a conversa, que aconteceu antes da palestra realizada segunda-feira (3) na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Bensaïd apontou as contradições dos líderes europeus de direita que falam em um “novo acordo de Bretton Woods” e afirmou - ainda sem saber o resultado das eleições - que a liderança dos Estados Unidos sofre um declínio irreversível e que a hegemonia norte-americana só se sustenta atualmente graças ao poderio militar e político do país.

Renomado teórico trotskista, Bensaïd fez também duras críticas à social-democracia européia e apontou a falta de um projeto de esquerda na Europa. O francês afirma não conhecer muito bem a situação da América Latina, mas acredita que os governos de esquerda da região podem constituir uma alternativa local à crise. Ele afirma também que chegou a hora de dizer qual “outro mundo possível” realmente queremos. Leia abaixo a entrevista de Daniel Bensaïd, que dará palestras hoje (5) em Porto Alegre (Memorial Rio Grande do Sul, 19h), amanhã (6) em São Paulo (PUC, 19h) e no sábado (8) em Ouro Preto (Casa da Ópera, 9h30):


Carta MaiorQuais são suas impressões, em linhas gerais, sobre a atual crise financeira mundial? Estamos diante de uma crise terminal do sistema capitalista?

Daniel Bensaïd – O capitalismo não vai acabar sozinho. Esta é uma crise histórica, e não somente uma crise ordinária, como o capitalismo conheceu a cada dez ou quinze anos. Essa crise era também previsível, porque é impossível exigir_ como fazem os acionistas _ um retorno sobre seus investimentos da ordem de quinze por cento ao ano frente a um crescimento que em média, no caso dos países desenvolvidos, é de dois ou três por cento ao ano. Alguns dizem que a crise financeira pode chegar à economia real, o que é uma fórmula um pouco absurda porque as finanças fazem parte da economia, elas não são irreais, efetivamente. Por trás dessa crise financeira já havia uma crise de produção. Ao menos para os países europeus - eu não conheço as estatísticas sobre o Brasil - a divisão do valor agregado entre salário e trabalho se deslocou dez por cento em favor do capital, ou seja, do ganho do capital em detrimento do trabalho, o que provoca uma crise incontrolável. Para continuar a vender - porque se existe o produto é preciso vendê-lo - houve um aumento totalmente louco do crédito, e não somente do crédito hipotecário imobiliário nos Estados Unidos. Também aumentou o crédito ao consumo, o crédito às empresas, etc. A crise, desse ponto de vista, era previsível.

Por outro lado, ela não é simplesmente uma fatalidade, é o resultado de decisões políticas que se acumularam por vinte anos, porque a desregulamentação das bolsas, a livre circulação de capitais, o desenvolvimento dos ganhos do capital não fiscalizados, tudo isso foi precedido por uma série de medidas legislativas tomadas pelos diferentes parlamentos na Inglaterra, na França, na Alemanha, etc. No que concerne à Europa, isso foi sistematizado pelos diferentes tratados da União Européia, de Maastrich em 1992 até o Tratado de Lisboa no ano passado, que codificaram o livre mercado europeu. Portanto, essa era uma crise previsível e ela é muito grave porque é globalizada, esse é seu caráter inédito. Mas, por trás de tudo isso, eu creio que o capitalismo poderá se restabelecer, ele já resistiu a outras crises. O problema é saber a qual preço e quem vai pagar o preço, pois essa é, afinal de contas, uma crise mais profunda. No jargão marxista, podemos dizer que a lei do valor atualmente funciona muito mal. Hoje, não podemos medir pelo tempo do relógio um trabalho social muito complexo, que cada vez mais mobiliza conhecimento acumulado, como não podemos tampouco medir a crise ecológica pela flutuação das bolsas de valores.


CMA crise ambiental, com o problema do aquecimento global, torna a crise financeira ainda mais grave. Estamos vivendo uma crise da humanidade?

DB – Sim, e a crise ambiental não é um problema qualquer. Quando pensamos nas conseqüências, que virão durante séculos ou talvez milhares de anos, da estocagem de lixo nuclear, da destruição das florestas, da poluição dos oceanos e, agora, das mudanças climáticas, vemos que todos esses problemas não poderão ser controlados simplesmente pelos mecanismos do mercado que, por definição, são mecanismos que arbitram no curto prazo ou de maneira instantânea. Está no centro do que chamamos de organização social a prática de medir toda riqueza, toda relação social, e mesmo a relação da sociedade humana com a natureza, pelo único critério do tempo de trabalho abstrato.

CMOs países da Europa tomaram a dianteira contra a crise com medidas protecionistas e forte presença do Estado. O presidente da França, Nicolas Sarkozy, afirmou que os países devem caminhar para um novo Bretton Woods. Como o senhor analisa a posição européia?


DB – Existe uma contradição em uma crise como esta. Como a globalização esta aí e é, em parte, irreversível, todo mundo hoje, e mesmo os antigos liberais fanáticos de outrora, pensa que é preciso estabelecer uma regulação e novas regras do jogo. Todo mundo fala de uma regulação em escala mundial, um novo Bretton Woods, ou ao menos em escala continental como, se pegarmos o exemplo da Europa, a criação do Fundo Soberano Europeu. Estas são as intenções. Ao mesmo tempo, dentro de uma crise grave como esta, cada um tenta jogar de forma solitária, e nós observamos desde o início da crise interesses diferentes como, por exemplo, na Alemanha e na Irlanda, que quiseram proteger seus próprios capitais e seus próprios bancos.


É cedo demais para dizer quem vai levar a melhor ou se haverá uma espécie de solidariedade entre capitalistas suficientemente forte para criar mecanismos de controle da crise e de solução para os nossos problemas. Ou ainda, ao contrário, se vamos assistir a um agravamento muito forte da concorrência intercapitalista, interimperialista ou entre os grandes blocos. Uma crise como a atual cria também tendências centrífugas muito fortes.

CMO senhor acredita que esta crise consolida o declínio dos Estados Unidos como potência hegemônica mundial?


DB – Do ponto de vista econômico, o declínio do império americano começou há muito tempo. Os EUA é o país mais endividado do mundo, que continua a desempenhar um papel hegemônico, em grande parte, por causa do seu poderio militar, que representa 60% dos armamentos e das despesas com armamentos em todo o mundo. E, atualmente, existe um efeito perverso, pois a dívida americana havia sido neutralizada pelo deslocamento de capitais dos países produtores de petróleo e da China aos EUA sob forma de Obrigações do Tesouro, ou seja, em dólares. Se esses capitais se retiram, eles fazem o dólar cair e os EUA perdem de todo jeito. Portanto, do ponto de vista econômico, existe uma espécie de mecanismo que deixa os EUA na condição de refém. Enquanto os EUA mantiver a hegemonia militar, o cenário atual poderá durar, mas a gente vê muito bem hoje, e via mesmo antes da crise, que o euro - ou mesmo o yen, mas, sobretudo o euro - pode se tornar a moeda de reserva no lugar do dólar, que ainda guarda seu papel de moeda de troca internacional muito mais por causa da potência política e militar estadunidense do que por causa da solidez da economia dos Estados Unidos. Por isso, eu creio que hoje o declínio dos EUA é irreversível.

CMQual sua avaliação sobre o posicionamento da esquerda frente à crise financeira? O senhor acredita que os governos de esquerda da América Latina podem ter papel importante na busca de soluções para a crise?


DB – Eu não conheço muito bem o contexto da América Latina. Eu não sei qual vai ser, por exemplo, a capacidade da Venezuela se o preço do petróleo continuar a cair, portanto é mesmo possível que os efeitos da crise sejam mais duros para paises como a Bolívia ou a Venezuela do que para o Brasil, que tem uma exportação mais diversificada. Eu penso que a crise se fará sentir também no Brasil, mas talvez menos forte. Agora, se a reação à crise vai começar a partir de um pólo bolivariano ou a partir da tentativa do Banco do Sul para se tornar autônomo em relação ao dólar, se vai ser criada uma solidariedade energética e alimentar entre os países da América Latina, se isso tudo vai avançar ou não, a questão está aqui e a resposta está aqui. Eu não tenho resposta.

CME na Europa, existe um projeto da esquerda?


DB – A social-democracia, que é a maior força de esquerda na Europa, vem destruindo metodicamente nos últimos vinte anos os mecanismos do Estado-providência e do Estado de Bem Estar Social.Atualmente, diante da brutalidade da crise, vemos dirigentes do Partido Socialista na França falarem novamente de nacionalização. O que fez Sarkozy não foi em hipótese alguma a nacionalização dos bancos. O que ele fez foi dar aos bancos a segurança do Estado sem nem mesmo solicitar o direito a voto nos conselhos de administração, foi meramente um socorro aos bancos.


Certas vozes de esquerda pedem o relançamento de uma política de aumento dos salários, mas isso exigiria uma política séria em escala européia, porque existe o desafio de fazer em nível europeu o contrário do que fizeram os partidos socialistas nos governos nacionais nos últimos vinte anos, ou seja, reconstruir os serviços públicos europeus, harmonizar a fiscalização européia, desenvolver uma fiscalização fortemente progressiva e retomar o poder de compra. Isso significa destruir todos os tratados sobre os quais foi construída a União Européia desde 1992. Eu não acredito que exista nem a vontade política de fazer isso nem a força social para fazer. Por uma razão, pois, através do processo que atravessou, a social-democracia européia perdeu muito do seu apoio popular. Por outro lado, ela se integrou muito fortemente ao topo, às empresas privadas e às finanças globalizadas. O símbolo disso é a presença de dois social-democratas franceses como homens de confiança do capital à frente da OMC (Dominique Strauss-Khan) e do FMI (Pascal Lamy). Isso resume um pouco a situação.


CMO economista François Chesnais afirma que esta crise é a primeira etapa de um processo muito longo e que não sabemos como ele vai acabar. O senhor sempre foi um crítico contumaz tanto do capitalismo e da globalização financeira quanto dos regimes socialistas constituídos sob a ótica stalinista. O senhor acredita que a humanidade está preparada para construir uma terceira via?


DB – A terceira via não passa nem pela gestão estatal e burocrática que faliu nos países do Leste da Europa, notadamente na União Soviética, nem pelo liberalismo. Muita gente diz hoje em dia que a crise não foi causada pelo capitalismo em si, mas pelos excessos e abusos cometidos. Não, a crise foi causada fundamentalmente pela própria lógica do capitalismo. Eu acredito que passamos da fase dos slogans simpáticos dos fóruns sociais. Se um outro mundo é possível, chegou a hora de dizer qual. Nós saímos de um século que terminou, sob o meu ponto de vista, com uma derrota histórica das esperanças de emancipação. Nós entramos no século XXI com muito menos ilusão do que nossos ancestrais entraram no século XX, sobretudo os socialistas, que acreditavam no fim das guerras e da exploração.


O problema atual é que estamos no início de uma longa reconstrução, mas, ao mesmo tempo, numa corrida contra o relógio, mais do que nunca, pois vivemos uma crise de destruição não somente social, mas também ecológica. Para mim, há somente uma alternativa: opor à concorrência e à lógica do todos contra todos uma lógica do bem comum, dos serviços públicos e da solidariedade. Podemos chamar isso de socialismo, comunismo ou democracia autogestionária. É preciso tentar. Se nós não tentarmos mudar o mundo, ele vai nos esmagar.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

O abalo dos muros - Frei Betto - in: Outro Brasil - LPP

O abalo dos muros

Frei Betto


Em 2009 faz 20 anos da queda do Muro de Berlim, símbolo da bipolaridade do mundo dividido em dois sistemas: capitalista e socialista. Agora assistimos ao declínio de Wall Street (Rua do Muro), na qual se concentram as sedes dos maiores bancos e instituições financeiras.

O muro que dá nome à rua de Nova York foi erguido pelos holandeses em 1652 e derrubado pelos ingleses em 1699. New Amsterdam deu lugar a New York.

O apocalipse ideológico no Leste europeu, jamais previsto por qualquer analista, fortaleceu a idéia de que fora do capitalismo não há salvação. Agora, a crise do sistema financeiro derruba o dogma da imaculada concepção do livre mercado como única panacéia para o bom andamento da economia.

Ainda não é o fim do capitalismo, mas talvez seja a agonia do caráter neoliberal que hipertrofiou o sistema financeiro. Acumular fortunas tornou-se mais importante que produzir bens e serviços. A bolha especulativa inflou e, súbito, estourou.

Repete-se, contudo, a velha receita: após privatizar os ganhos, o sistema socializa os prejuízos. Desmorona a cantilena do “menos Estado e mais iniciativa privada”. Na hora da crise, apela-se ao Estado como bóia de salvamento na forma de US$ 700 bilhões (5% do PIB dos EUA ou o custo de todo o petróleo consumido em um ano naquele país) a serem injetados para anabolizar o sistema financeiro.

O programa Bolsa Fartura de Bush reúne quantia suficiente para erradicar a fome no mundo. Mas quem se preocupa com os pobres? Devido ao aumento dos preços dos alimentos, nos últimos dozes meses o número de famintos crônicos subiu de 854 milhões para 950 milhões, segundo Jacques Diouf, diretor-geral da FAO.

Quem pagará a fatura do Proer usamericano? A resposta é óbvia: o contribuinte. Prevê-se o desemprego imediato de 11 milhões de pessoas vinculadas ao mercado de capitais e à construção civil. Os fundos de pensão, descapitalizados, não terão como honrar os direitos de milhões de aposentados, sobretudo de quem investiu em previdência privada.

A restrição do crédito tende a inibir a produção e o consumo. Os bancos de investimentos põem as barbas de molho. Os impostos sofrerão aumentos. O mercado ficará sob regime de liberdade vigiada: vale agora o modelo chinês de controle político da economia, e não mais o controle da política pela economia, como ocorre no neoliberalismo.

Em 1967, J.K. Galbraith chamava a atenção para a crise do caráter industrial do capitalismo. Nomes como Ford, Rockefeller, Carnegie ou Guggenheim, exemplos de empreendedores, desapareciam do cenário econômico para dar lugar à ampla rede de acionistas anônimos. O valor da empresa deslocava-se do parque industrial para a Bolsa de Valores.

Na década seguinte, Daniel Bell alertaria para a íntima associação entre informação e especulação, e apontaria as contradições culturais do capitalismo: o ascetismo (= acumulação) em choque com o estímulo consumista; os valores da modernidade destronados pelo caráter iconoclasta das inovações científicas e tecnológicas; lei e ética em antagonismo quanto mais o mercado se arvora em árbitro das relações econômicas e sociais.

Se a queda do Muro de Berlim trouxe ao Leste europeu mais liberdade e menos justiça, introduzindo desigualdades gritantes, o abalo de Wall Street obriga o capitalismo a se repensar. O cassino global torna o mundo mais feliz? Óbvio que não. O fracasso do socialismo real significa vitória do capitalismo virtual (real para apenas 1/3 da humanidade)? Também não.

Não se mede o fracasso do capitalismo por suas crises financeiras, e sim pela exclusão - de acesso a bens essenciais de consumo e direitos de cidadania, como alimentação, saúde e educação -, de 2/3 da humanidade. São 4 bilhões de pessoas que, segundo a ONU, vivem entre a miséria e a pobreza, com renda diária inferior a US$ 3.

á, sim, que buscar, com urgência, um outro mundo possível, economicamente justo, politicamente democrático e ecologicamente sustentável.

- Frei Betto é escritor e assessor de movimentos sociais, autor de “Calendário do Poder” (Rocco), entre outros livros.


Fonte: http://alainet.org/active/26757=ES


http://www.lpp-uerj.net/outrobrasil/exibir_artigos_entrevistas.asp?Id_sub_artigo=339&Id_artigo=2

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Taxa de juros e ideologia do Cassino financeiro

17/10/2008 - Ceci Juruá

Taxa de juros e ideologia do Cassino financeiro

Ceci Juruá


As altas finanças globalizadas aliam ao poder do dinheiro o chamado soft power, isto é uma ideologia que justifica suas práticas, lícitas ou não, e que se espalha por universidades, empresas de consultoria e imprensa falada e escrita. Na retaguarda desta ideologia, o mundo dos negócios funciona distribuindo contratos e títulos honoríficos, e posando de mecenas da educação e cultura. Se necessário, outros meios podem ser acionados como aqueles de que nos fala J. Perkins em Confissões de um Assassino Econômico, ou F. Sounders em Quem paga a conta ?,


Por esses túneis sombrios e canais bem irrigados, disseminam-se algumas inverdades, particularmente no que diz respeito ao uso da taxa de juros para fins de política econômica. No Brasil, a tese preferida dos Chicago?s boys é que os juros devem ser aumentados sempre que houver ameaças inflacionárias à vista. Mas de qual juros eles falam :


-daqueles que remuneram nossa poupança, de 0,5% ao mes ?

-do cartão de crédito que cobra mensalmente 10% ou mais ?

-do empréstimo consignado, 2% mensais e 30% anuais?

-do crédito bancário às empresas, em torno de 50% ao ano ?

-do financiamento de automóveis, 35 % anuais ?


Veja, caro leitor, que não há uma única taxa de juros no sistema econômico. Há uma multiplicidade delas, em todos os países. Quando os manuais de Economia afirmam que a taxa de juros é um instrumento de combate à inflação, porque « quanto maior for a taxa de juros, menor será a demanda de moeda », eles estão se referindo, certamente, à taxa média vigente na economia. Como em todos os modelos, os conceitos são abstratos e não podem ser aplicados dogmaticamente.


O pessoal da engenharia financeira não sabe disso, creio eu. E fica insistindo que é melhor aumentar os juros ? aqueles que incidem sobre a dívida do governo - para prevenir inflação. Essa saída é muito fácil, porque assim a conta recai sobre os trabalhadores. Nós pagamos impostos ao governo para que o governo pague juros aos banqueiros. Mesmo assim a conta não fecha. Em agosto, depois de transferir uma montanha de juros aos bancos, a dívida do governo aumentou R$ 18,8 bilhões! Dezoito bilhões a mais de dívida pública em um único mês ! Em setembro será pior, pois o Banco Central já aumentou a SELIC.


Mas aquilo que se cobra sobre a dívida do governo, a taxa SELIC, será este o melhor instrumento para prevenir a inflação ? Penso que não.


Na verdade as taxas de juros que auxiliam no combate à inflação são as que incidem sobre os gastos dos consumidores e as que recaem sobre investimentos das empresas, por duas razões. Primeiro, as pessoas fazem menos empréstimos e compram menos a crédito quando os juros aumentam. Segundo, as empresas investem menos quando os juros minguam os lucros. Esses dois tipos de taxa é que funcionam como repressores da demanda e como instrumentos de combate à inflação. No Brasil, eles já são abusivamente elevados e por isto tornam-se ineficazes na luta anti-inflacionária. Para reprimir demanda é preciso conter o crédito, como acaba de anunciar o Ministro da Fazenda.


Além do mais, ainda se pode acreditar que a taxa SELIC «divulgada pelo Comitê de Política Monetária (COPOM). tem vital importância na economia, pois as taxas de juros cobradas pelo mercado são balizadas pela mesma » ?. Sinceramente não creio nisso. A SELIC é calculada com base no custo médio das operações lastreadas em títulos públicos federais e só se aplica aos títulos do governo, beneficiando tão somente os rentistas da dívida pública. Assim, a SELIC provoca e amplia o déficit público e, nesse sentido, pode ter efeitos inflacionários de alto risco !


A SELIC abusiva tem outros efeitos, perniciosos ao cidadão, funcionais ao capital. Quando o dinheiro dos impostos é direcionado aos bancos, o governo fica sem recursos para aplicar em gastos sociais, saúde e educação por exemplo. Qual a saída ? Privatizar, respondem os Chicago?s boys. Eis o que eles procuram com os aumentos sucessivos da SELIC: deixar o governo à mingua para justificar mais privatizações e lucros bilionários para o pessoal do Cassino Capitalista, no melhor estilo do american way of life !

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*Ceci Juruá é economista, membro do projeto Outro Brasil/LPP-UERJ, doutoranda do Programa PPFH, ex-professora da Universidade do Brasil e da Universidade Católica de Brasília. Foi Conselheira por dois triênios do CORECON-RJ e diretora do Sindicato dos Economistas do Rio de Janeiro


http://www.lpp-uerj.net/outrobrasil/exibir_artigos_entrevistas.asp?Id_sub_artigo=342&Id_artigo=1

sábado, 1 de novembro de 2008

O incontornável Marx

Divulgando...

Lendo Correio cidadania, encontrei esse artigo de um ano atrás, porém atual.

Escrito por Plinio Arruda Sampaio
22-Out-2007


O título deste livro esclarece perfeitamente seu objetivo: trata-se de mostrar a atualidade do pensamento marxista, numa hora em que vozes interessadas, na academia, na imprensa, na política, anunciam sua superação como ferramenta útil para a análise da realidade que nos cerca. Jorge Novoa retruca: Marx é incontornável.

Ele tem razão. Se o conhecimento do marxismo sempre foi necessário para as pessoas engajadas na transformação a sociedade, seu estudo torna-se absolutamente indispensável no momento em que o capitalismo assume uma feição ainda mais sinistra do que no passado.

Para demonstrar sua tese, Novoa reuniu doze ensaios marxistas a respeito dos problemas que o homem moderno precisa resolver a fim de deter a marcha batida da humanidade em direção a um tempo de barbárie.

Textos inéditos de autores nacionais alternam-se com ensaios de autores estrangeiros bastante familiarizados com a luta socialista em nosso país. São reflexões sobre o sindicalismo, partido político, socialismo, terrorismo, nacionalismo, imperialismo, ecologia – nenhuma das questões que preocupam a humanidade neste inicio de século deixou de ser incluída.

Os doze ensaios compõem uma verdadeira mini-enciclopédia marxista, que não deveriam faltar nas estantes dos brasileiros que acreditam na força do seu país e na possibilidade concreta de instaurar aqui uma sociedade próspera e socialista.

O incontornável Marx - Editora Unesp - Organizador: Jorge Novoa


Plínio de Arruda Sampaio é diretor do Correio da Cidadania.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

SEMANA ANTIIMPERIALISTA – CONTRA O LUCRO, ACIMA DA VIDA

Divulgando - Fazendo Média - http://www.fazendomedia.com/2008/movimentos20081023.htm
Por Gilka Resende, da redação, e Rafael Duarte (*)

Entre os dias 12 e 18 de outubro aconteceu a Jornada de Lutas da Semana Antiimperialista, atividade unificada proposta durante o Encontro de Trabalhadores Latino-Americanos e Caribenhos (ELAC), realizado em julho último na cidade de Betim, Minas Gerais.

As principais reivindicações foram: retirada das tropas do Haiti, aumento geral dos salários, redução da jornada de trabalho e fim dos leilões de petróleo. Os manifestantes também protestaram contra as privatizações de empresas estatais, a mercantilização da educação e da saúde e a criminalização da pobreza e dos movimentos sociais. Também foi destaque o apoio ao povo boliviano e a luta pela soberania alimentar.


Protesto contra alta nos preços dos alimentos no Rio de janeiro

Na capital carioca as atividades se concentraram na quinta-feira, 16. O ato público Mulheres em Luta pela Soberania Alimentar escolheu a fachada de um supermercado da Rede Sendas para discutir a alta nos preços dos alimentos, chamando atenção de passantes. Alguns até se juntaram à manifestação.


Busca pelo lucro é responsável pela alta dos preços dos alimentos.



Foto: Leila Salles/ Pacs




“Os alimentos estão em alta porque sua comercialização está nas mãos destas empresas que só querem ganhar dinheiro, cada vez mais, à custa do prato de comida do povo. (...) Pagamos caro por uma crise que, ao contrário do que afirma o Governo Federal Lula e o Estadual Cabral, afeta-nos muito”, indicou trecho do documento divulgado pelas organizadoras. Um grande tapete lilás, cor que representa a luta feminista, foi estendido no chão. Nele, mensagens de crítica à atual lógica de produção e distribuição dos alimentos que gera exclusão no mundo.


A atividade defendeu o reconhecimento e o fortalecimento do trabalho das mulheres e a reforma urbana e agrária. Mulheres e homens, também presentes na manifestação pública, exigiram uma outra economia, que proporcione uma sociedade sem fome.


Mais duas manifestações de rua à tarde

Mulheres da Via Campesina, que também compuseram o ato da manhã, foram para Belford Roxo. Cerca de 300 integrantes fizeram outro ato público, dessa vez, em frente à sede da transnacional Bayer. Desde a entrada da cidade, os ônibus que levavam os manifestantes, vindos de diversas regiões do estado, foram escoltados pela polícia.


A atividade seguiu a linha política do protesto realizado mais cedo, denunciando o modelo de agricultura industrial controlado por grandes empresas transnacionais. Os presentes responsabilizaram esse modelo pela elevação do preço dos alimentos e pelo crescimento de famintos no mundo.

Mulheres em frente à Bayer. Foto: Rafael Duarte.


A Via Campesina defende a reforma agrária e uma política de apoio à agricultura familiar. “Queremos propor uma outra lógica de relação do homem com o campo. Defendemos a agroecologia. A Bayer é uma transnacional que monopoliza a produção de sementes, usa os venenosos agrotóxicos, rouba nossas riquezas e explora os trabalhadores brasileiros. Fizemos esse ato pois a Bayer representa tudo que combatemos” disse Eliana Souza, da direção estadual do MST.



Ato unificado contra a política imperialista

Simultaneamente, no Centro da cidade, representantes de diversas entidades saíram da Candelária em direção à Avenida Rio Branco, forte centro financeiro do Rio. A passeata intitulada Que os ricos paguem pela Crise Econômica! levou cerca de 350 pessoas a um extenso percurso. Por conta da multiplicidade de reivindicações, foram várias paradas em pontos simbólicos.

Após atravessarem a Rio Branco, professores e estudantes criticaram o Projeto Reuni (Programa de Apoio ao Plano de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais) em frente ao prédio do Ministério da Educação (MEC). O projeto foi aprovado, em 2007, em circunstâncias antidemocráticas, segundo os manifestantes. Os secundaristas, em maioria na manifestação, denunciaram a precariedade do ensino em suas escolas e a restrição ao Passe-Livre; nem todos têm acesso ao direito e, aos que têm, restam apenas 60 passagens.

“As Barcas S/A não liberaram nossa passagem hoje, por exemplo. Parece que os governantes pensam que a educação e a cultura só estão no caminho casa e escola. Não temos o direito de participar de uma manifestação? De ir ao museu, ao teatro? Um absurdo!”, reclamou Carine Vasconcellos, 16 anos, estudante do Colégio Pedro II, de Niterói. Os cerca de 150 secundaristas chegaram até o ato público por meio de ônibus intermunicipal, isso depois de pressionar a empresa de ônibus, contaram.

Em frente à Companhia Vale do Rio Doce, Marcelo Durão, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), lembrou a Campanha pela re-estatização da empresa, ocorrida em 2007. Na ocasião, 94,5% dos 3,7 milhões de participantes disseram “não” a uma Vale entregue ao capital privado. A mineradora foi vendida, em 1997, por R$ 3,3 bilhões, sendo que seu valor estava orçado em mais de R$ 10 bilhões. “Essa empresa é responsável por grandes crimes ambientais e quase sempre sai imune. A Vale, que deveria ser do povo brasileiro, foi vendida por preço de banana. Ela tem até uma Agência de Inteligência, dentro deste prédio aí, que estuda as ações do MST”, disse Durão, relacionando o atual papel da empresa às políticas imperialistas.

A Embaixada dos Estados Unidos foi mais um ponto de parada. Lá, como não poderia deixar de ser, a principal pauta foi a crise financeira. “Nunca há dinheiro para a educação, para a saúde. Mas sempre há dinheiro para os banqueiros”, protestou Emanuel Cancella, secretário geral do Sindipetro-RJ. Depois, os militantes queimaram o “símbolo do império”, a bandeira estadunidense. “Estamos em frente à embaixada do país que é coração do imperialismo, em frente aos que se acham donos do mundo”, caracterizou, em cima do carro de som, Ciro Garcia, do PSTU.

A marcha foi pacífica. Apenas um pequeno estresse entre um guarda municipal, que ministrava o trânsito na altura do prédio da Vale, e alguns militantes. Uma jovem senhora loira não aceitava esperar a manifestação passar para sair com seu Pajero TR4. Nervosa, a motorista reclamou bastante com o guarda, que replicou aos militantes. Em menos de 10 minutos, ela saiu com seu carro de bancos de couro que custa, em média, R$75 mil. Na traseira, a frase “the car, the legend”, que significa “o carro, a lenda”. Com o valor do automóvel, os 150 secundaristas de Niterói pagariam 90 vezes a passagem de R$ 2,75 do ônibus intermunicipal, contando ida e volta.

O encerramento do ato Que os ricos paguem a Crise Econômica! ficou para as escadarias do Palácio Tiradentes, que sedia a Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). As manifestações públicas que compuseram a Semana Antiimperialista contaram com a organização de diversas entidades e grupos políticos.

Entre eles: MST/ Via Campesina, Central de Movimentos Populares, Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul (Pacs), Assembléia Popular, Comitê Popular de Mulheres, CAMTRA, Movimento Direito Para Quem?, PSOL, Conlutas, Intersindical, PSTU, SEPE- RJ, DCEs da UERJ, UFF e UFRJ,Grêmios do Pedro II, Intersindical, MTST, Liberdade Lilás, PCB, Agroecologia e Luta Contra o Deserto Verde, Sindipetro-RJ, Marcha Mundial das Mulheres, Comissão Pastoral da Terra, Rede Jubileu Sul, entre outros.(*) Repórter da Agência Petroleira de Notícias.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Usina de Itaipu perde na Justiça - Guaranis permanecem nas terras

Usina de Itaipu perde na Justiça. Índios guarani permanecem nas terras

Fonte: Agência Petroleira de Notícias (www.apn.org.br),
com informações do CIMI



O Tribunal Regional Federal do Paraná rejeitou ação da Usina de Itaipu que pleiteava a posse de três aldeias Guarani no Paraná, garantindo a permanência dos índios em suas aldeias, independente na demarcação da terra. A Justiça Federal já havia decidido em favor dos indígenas em dezembro do ano passado, mas a usina recorreu, pedindo reintegração de posse.O Conselho Indigenista Missionário (CIMI) comemorou a decisão da Justiça e lembrou que durante a construção de Itaipu, diversas terras indígenas foram alagadas, apesar do protesto dos povos.




www.apn.org.br

É permitida (e recomendável) a reprodução dessa matéria, desde que citada a fonte.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

FORA AS TROPAS BRASILEIRAS DA FRONTEIRA COM O PARAGUAI - SOLIDARIEDADE AOS CAMPONESES SEM TERRA

FORA AS TROPAS BRASILEIRAS DA FRONTEIRA

COM O PARAGUAI

SOLIDARIEDADE AOS CAMPONESES SEM TERRA

(Nota do PCB – Partido Comunista Brasileiro)

Tropas militares brasileiras ocuparam nos últimos dias toda a faixa da nossa fronteira com o Paraguai, inclusive a região onde fica a usina de Itaipu Binacional. Informalmente, o governo federal insinua que se trata de uma operação para combater o contrabando, competência constitucional da Polícia Federal e não das Forças Armadas. Na verdade, trata-se da "Operação Fronteira Sul – Presença e Dissuasão", apresentada como simples "exercícios militares".

Movimentos sociais paraguaios, entretanto, vêm denunciando que se trata de uma ameaça militar do governo brasileiro, exatamente no momento em que trabalhadores sem-terra vêm ocupando latifúndios transnacionais produtores de soja - de propriedade atribuída a brasileiros (os chamados "brasiguaios") - que se alastram a partir da fronteira, destruindo o meio ambiente e expulsando os camponeses pobres para as periferias das cidades.

Essas terras - das quais camponeses foram expulsos à força - foram irregularmente cedidas pela ditadura militar paraguaia de Strossner a seus partidários, que as transferiram a amigos da ditadura militar brasileira, nos anos 70, quando foi firmado, sem qualquer transparência, o acordo que criou a Binacional Itaipu.

O preocupante é que a operação militar de "dissuasão" se dá logo em seguida à discreta publicação do decreto nº 6.592, no último dia 2 deste mês. O decreto (assinado por Lula e Nelson Jobim, Ministro da Defesa), feito sob medida diante da ofensiva popular na América do Sul, afasta o Brasil de sua imagem pacifista, ao estabelecer parâmetros elásticos e subjetivos para definir a expressão "agressão estrangeira". Este decreto veio a propósito de uma pressão da direita militar brasileira, como se pode verificar no sítio www.defesanet.com.br, que exibe emblemática matéria sob o título "Exclusivo: Missão Paraguai" (*).

O PCB exige a imediata retirada das tropas brasileiras da fronteira com o Paraguai e conclama o Presidente Lula a se comportar à altura do momento histórico que vive a América Latina, em que os nossos povos resolveram dar um basta a atitudes imperialistas como esta e construir sociedades justas e solidárias.

Além de respeitar a soberania do Paraguai, deve o governo brasileiro renegociar o leonino acordo de Itaipu, no sentido de reparar os prejuízos que este causa ao povo paraguaio, e devolver imediatamente àquele país amigo seus Arquivos e Tesouros Nacionais, saqueados no século XIX por nossas tropas, após o vergonhoso genocídio que cometeram, em famigerada "tríplice aliança" com Argentina e Uruguai.

Rio de Janeiro, 23 de outubro de 2008

PCB – Partido Comunista Brasileiro

Comissão Política Nacional

(*) veja no sítio a íntegra do decreto assinado por Lula, com comentários. Há também três artigos sobre os "perigos que vêm do Paraguai", a satanização do movimento sem-terra e várias outras provocações contra países e lideranças da América Latina.

Alguns comentários do sítio sobre o decreto:
"O recado passado aos vizinhos é claro e incisivo. Uma agressão ou perseguição aos cidadãos brasileiros residentes no Paraguai – brasiguaios – assim como na região do Pando, na Bolívia e, uma nova ameaça de corte no fornecimento de gás e a tomada de instalações e empresas brasileiras legalmente constituídas e operando em outros países, caracterizarão a partir de agora agressões externas, e uma resposta militar por parte do Brasil passa a ter amparo legal...
A partir de agora podemos afirmar que a surda guerra travada pelo Regime Bolivariano de cerco ao Brasil tem uma resposta legal e permite ao Brasil intervenção militar..."

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

ENTREVISTA: ERIC HOBSBAWM

A crise do capitalismo e a importância atual de Marx

Em entrevista a Marcello Musto, o historiador Eric Hobsbawm analisa a atualidade da obra de Marx e o renovado interesse que vem despertando nos últimos anos, mais ainda agora após a nova crise de Wall Street. E fala sobre a necessidade de voltar a ler o pensador alemão: "Marx não regressará como uma inspiração política para a esquerda até que se compreenda que seus escritos não devem ser tratados como programas políticos, mas sim como um caminho para entender a natureza do desenvolvimento capitalista".

Marcello Musto - Sin Permiso

Em entrevista a Marcello Musto, o historiador Eric Hobsbawm analisa a atualidade da obra de Marx e o renovado interesse que vem despertando nos últimos anos, mais ainda agora após a nova crise de Wall Street. E fala sobre a necessidade de voltar a ler o pensador alemão: "Marx não regressará como uma inspiração política para a esquerda até que se compreenda que seus escritos não devem ser tratados como programas políticos, mas sim como um caminho para entender a natureza do desenvolvimento capitalista".

Eric Hobsbawm é considerado um dos maiores historiadores vivos. É presidente do Birbeck College (London University) e professor emérito da New School for Social Research (Nova Iorque). Entre suas muitas obras, encontra-se a trilogia acerca do "longo século XIX": "A Era da Revolução: Europa 1789-1848" (1962); "A Era do Capital: 1848-1874" (1975); "A Era do Império: 1875-1914 (1987) e o livro "A Era dos Extremos: o breve século XX, 1914-1991 (1994), todos traduzidos em vários idiomas.

Entrevistamos o historiador por ocasião da publicação do livro "Karl Marx's Grundrisse. Foundations of the Critique of Political Economy 150 Years Later" (Os Manuscritos de Karl Marx. Elementos fundamentais para a Crítica da Economia Política, 150 anos depois).

Nesta conversa, abordamos o renovado interesse que os escritos de Marx vêm despertando nos últimos anos e mais ainda agora após a nova crise de Wall Street. Nosso colaborador Marcello Musto entrevistou Hobsbawm para Sin Permiso.

Marcello Musto: Professor Hobsbawm, duas décadas depois de 1989, quando foi apressadamente relegado ao esquecimento, Karl Marx regressou ao centro das atenções. Livre do papel de intrumentum regni que lhe foi atribuído na União Soviética e das ataduras do "marxismo-leninismo", não só tem recebido atenção intelectual pela nova publicação de sua obra, como também tem sido objeto de crescente interesse. Em 2003, a revista francesa Nouvel Observateur dedicou um número especial a Marx, com um título provocador: "O pensador do terceiro milênio?". Um ano depois, na Alemanha, em uma pesquisa organizada pela companhia de televisão ZDF para estabelecer quem eram os alemães mais importantes de todos os tempos, mais de 500 mil espectadores votaram em Karl Marx, que obteve o terceiro lugar na classificação geral e o primeiro na categoria de "relevância atual".

Em 2005, o semanário alemão Der Spiegel publicou uma matéria especial que tinha como título "Ein Gespenst Kehrt zurük" (A volta de um espectro), enquanto os ouvintes do programa "In Our Time" da rádio 4, da BBC, votavam em Marx como o maior filósofo de todos os tempos. Em uma conversa com Jacques Attali, recentemente publicada, você disse que, paradoxalmente, "são os capitalistas, mais que outros, que estão redescobrindo Marx" e falou também de seu assombro ao ouvir da boca do homem de negócios e político liberal, George Soros, a seguinte frase: "Ando lendo Marx e há muitas coisas interessantes no que ele diz". Ainda que seja débil e mesmo vago, quais são as razões para esse renascimento de Marx? É possível que sua obra seja considerada como de interesse só de especialistas e intelectuais, para ser apresentada em cursos universitários como um grande clássico do pensamento moderno que não deveria ser esquecido? Ou poderá surgir no futuro uma nova "demanda de Marx", do ponto de vista político?

Eric Hobsbawm: Há um indiscutível renascimento do interesse público por Marx no mundo capitalista, com exceção, provavelmente, dos novos membros da União Européia, do leste europeu. Este renascimento foi provavelmente acelerado pelo fato de que o 150° aniversário da publicação do Manifesto Comunista coincidiu com uma crise econômica internacional particularmente dramática em um período de uma ultra-rápida globalização do livre-mercado.

Marx previu a natureza da economia mundial no início do século XXI, com base na análise da "sociedade burguesa", cento e cinqüenta anos antes. Não é surpreendente que os capitalistas inteligentes, especialmente no setor financeiro globalizado, fiquem impressionados com Marx, já que eles são necessariamente mais conscientes que outros sobre a natureza e as instabilidades da economia capitalista na qual eles operam.

A maioria da esquerda intelectual já não sabe o que fazer com Marx. Ela foi desmoralizada pelo colapso do projeto social-democrata na maioria dos estados do Atlântico Norte, nos anos 1980, e pela conversão massiva dos governos nacionais à ideologia do livre mercado, assim como pelo colapso dos sistemas políticos e econômicos que afirmavam ser inspirados por Marx e Lênin. Os assim chamados "novos movimentos sociais", como o feminismo, tampouco tiveram uma conexão lógica com o anti-capitalismpo (ainda que, individualmente, muitos de seus membros possam estar alinhados com ele) ou questionaram a crença no progresso sem fim do controle humano sobre a natureza que tanto o capitalismo como o socialismo tradicional compartilharam. Ao mesmo tempo, o "proletariado", dividido e diminuído, deixou de ser crível como agente histórico da transformação social preconizada por Marx.

Devemos levar em conta também que, desde 1968, os mais proeminentes movimentos radicais preferiram a ação direta não necessariamente baseada em muitas leituras e análises teóricas. Claro, isso não significa que Marx tenha deixado de ser considerado como um grande clássico e pensador, ainda que, por razões políticas, especialmente em países como França e Itália, que já tiveram poderosos Partidos Comunistas, tenha havido uma apaixonada ofensiva intelectual contra Marx e as análises marxistas, que provavelmente atingiu seu ápice nos anos oitenta e noventa. Há sinais agora de que a água retomará seu nível.

Marcello Musto: Ao longo de sua vida, Marx foi um agudo e incansável investigador, que percebeu e analisou melhor do que ninguém em seu tempo o desenvolvimento do capitalismo em escala mundial. Ele entendeu que o nascimento de uma economia internacional globalizada era inerente ao modo capitalista de produção e previu que este processo geraria não somente o crescimento e prosperidade alardeados por políticos e teóricos liberais, mas também violentos conflitos, crises econômicas e injustiça social generalizada. Na última década, vimos a crise financeira do leste asiático, que começou no verão de 1997; a crise econômica Argentina de 1999-2002 e, sobretudo, a crise dos empréstimos hipotecários que começou nos Estados Unidos em 2006 e agora tornou-se a maior crise financeira do pós-guerra. É correto dizer, então, que o retorno do interesse pela obra de Marx está baseado na crise da sociedade capitalista e na capacidade dele ajudar a explicar as profundas contradições do mundo atual?

Eric Hobsbawm: Se a política da esquerda no futuro será inspirada uma vez mais nas análises de Marx, como ocorreu com os velhos movimentos socialistas e comunistas, isso dependerá do que vai acontecer no mundo capitalista. Isso se aplica não somente a Marx, mas à esquerda considerada como um projeto e uma ideologia política coerente. Posto que, como você diz corretamente, a recuperação do interesse por Marx está consideravelmente – eu diria, principalmente – baseado na atual crise da sociedade capitalista, a perspectiva é mais promissora do que foi nos anos noventa. A atual crise financeira mundial, que pode transformar- se em uma grande depressão econômica nos EUA, dramatiza o fracasso da teologia do livre mercado global descontrolado e obriga, inclusive o governo norte-americano, a escolher ações públicas esquecidas desde os anos trinta.

As pressões políticas já estão debilitando o compromisso dos governos neoliberais em torno de uma globalização descontrolada, ilimitada e desregulada. Em alguns casos, como a China, as vastas desigualdades e injustiças causadas por uma transição geral a uma economia de livre mercado, já coloca problemas importantes para a estabilidade social e mesmo dúvidas nos altos escalões de governo. É claro que qualquer "retorno a Marx" será essencialmente um retorno à análise de Marx sobre o capitalismo e seu lugar na evolução histórica da humanidade – incluindo, sobretudo, suas análises sobre a instabilidade central do desenvolvimento capitalista que procede por meio de crises econômicas auto-geradas com dimensões políticas e sociais. Nenhum marxista poderia acreditar que, como argumentaram os ideólogos neoliberais em 1989, o capitalismo liberal havia triunfado para sempre, que a história tinha chegado ao fim ou que qualquer sistema de relações humanas possa ser definitivo para todo o sempre.

Marcello Musto: Você não acha que, se as forças políticas e intelectuais da esquerda internacional, que se questionam sobre o que poderia ser o socialismo do século XXI, renunciarem às idéias de Marx, estarão perdendo um guia fundamental para o exame e a transformação da realidade atual?

Eric Hobsbawm: Nenhum socialista pode renunciar às idéias de Marx, na medida que sua crença em que o capitalismo deve ser sucedido por outra forma de sociedade está baseada, não na esperança ou na vontade, mas sim em uma análise séria do desenvolvimento histórico, particularmente da era capitalista. Sua previsão de que o capitalismo seria substituído por um sistema administrado ou planejado socialmente parece razoável, ainda que certamente ele tenha subestimado os elementos de mercado que sobreviveriam em algum sistema pós-capitalista.

Considerando que Marx, deliberadamente, absteve-se de especular acerca do futuro, não pode ser responsabilizado pelas formas específicas em que as economias "socialistas" foram organizadas sob o chamado "socialismo realmente existente". Quanto aos objetivos do socialismo, Marx não foi o único pensador que queria uma sociedade sem exploração e alienação, em que os seres humanos pudessem realizar plenamente suas potencialidades, mas foi o que expressou essa idéia com maior força e suas palavras mantêm seu poder de inspiração.

No entanto, Marx não regressará como uma inspiração política para a esquerda até que se compreenda que seus escritos não devem ser tratados como programas políticos, autoritariamente ou de outra maneira, nem como descrições de uma situação real do mundo capitalista de hoje, mas sim como um caminho para entender a natureza do desenvolvimento capitalista. Tampouco podemos ou devemos esquecer que ele não conseguiu realizar uma apresentação bem planejada, coerente e completa de suas idéias, apesar das tentativas de Engels e outros de construir, a partir dos manuscritos de Marx, um volume II e III de "O Capital". Como mostram os "Grundrisse", aliás. Inclusive, um Capital completo teria conformado apenas uma parte do próprio plano original de Marx, talvez excessivamente ambicioso.

Por outro lado, Marx não regressará à esquerda até que a tendência atual entre os ativistas radicais de converter o anti-capitalismo em anti-globalizaçã o seja abandonada. A globalização existe e, salvo um colapso da sociedade humana, é irreversível. Marx reconheceu isso como um fato e, como um internacionalista, deu as boas vindas, teoricamente. O que ele criticou e o que nós devemos criticar é o tipo de globalização produzida pelo capitalismo.
Marcello Musto: Um dos escritos de Marx que suscitaram o maior interesse entre os novos leitores e comentadores são os "Grundrisse". Escritos entre 1857 e 1858, os "Grundrisse" são o primeiro rascunho da crítica da economia política de Marx e, portanto, também o trabalho inicial preparatório do Capital, contendo numerosas reflexões sobre temas que Marx não desenvolveu em nenhuma outra parte de sua criação inacabada. Por que, em sua opinião, estes manuscritos da obra de Marx, continuam provocando mais debate que qualquer outro texto, apesar do fato dele tê-los escrito somente para resumir os fundamentos de sua crítica da economia política? Qual é a razão de seu persistente interesse?

Eric Hobsbawm: Desde o meu ponto de vista, os "Grundrisse" provocaram um impacto internacional tão grande na cena marxista intelectual por duas razões relacionadas. Eles permaneceram virtualmente não publicados antes dos anos cinqüenta e, como você diz, contendo uma massa de reflexões sobre assuntos que Marx não desenvolveu em nenhuma outra parte. Não fizeram parte do largamente dogmatizado corpus do marxismo ortodoxo no mundo do socialismo soviético. Mas não podiam simplesmente ser descartados. Puderam, portanto, ser usados por marxistas que queriam criticar ortodoxamente ou ampliar o alcance da análise marxista mediante o apelo a um texto que não podia ser acusado de herético ou anti-marxista. Assim, as edições dos anos setenta e oitenta, antes da queda do Muro de Berlim, seguiram provocando debate, fundamentalmente porque nestes escritos Marx coloca problemas importantes que não foram considerados no "Capital", como por exemplo as questões assinaladas em meu prefácio ao volume de ensaios que você organizou (Karl Marx's Grundrisse. Foundations of the Critique of Political Economy 150 Years Later, editado por M. Musto, Londres-Nueva York, Routledge, 2008).

Marcello Musto: No prefácio deste livro, escrito por vários especialistas internacionais para comemorar o 150° aniversário de sua composição, você escreveu: "Talvez este seja o momento correto para retornar ao estudo dos "Grundrisse", menos constrangidos pelas considerações temporais das políticas de esquerda entre a denúncia de Stalin, feita por Nikita Khruschev, e a queda de Mikhail Gorbachev". Além disso, para destacar o enorme valor deste texto, você diz que os "Grundrisse" "trazem análise e compreensão, por exemplo, da tecnologia, o que leva o tratamento de Marx do capitalismo para além do século XIX, para a era de uma sociedade onde a produção não requer já mão-de-obra massiva, para a era da automatização, do potencial de tempo livre e das transformações do fenômeno da alienação sob tais circunstâncias. Este é o único texto que vai, de alguma maneira, mais além dos próprios indícios do futuro comunista apontados por Marx na "Ideologia Alemã". Em poucas palavras, esse texto tem sido descrito corretamente como o pensamento de Marx em toda sua riqueza. Assim, qual poderia ser o resultado da releitura dos "Grundrisse" hoje?

Eric Hobsbawm: Não há, provavelmente, mais do que um punhado de editores e tradutores que tenham tido um pleno conhecimento desta grande e notoriamente difícil massa de textos. Mas uma releitura ou leitura deles hoje pode ajudar-nos a repensar Marx: a distinguir o geral na análise do capitalismo de Marx daquilo que foi específico da situação da sociedade burguesa na metade do século XIX. Não podemos prever que conclusões podem surgir desta análise. Provavelmente, somente podemos dizer que certamente não levarão a acordos unânimes.

Marcello Musto: Para terminar, uma pergunta final. Por que é importante ler Marx hoje?

Eric Hobsbawm: Para qualquer interessado nas idéias, seja um estudante universitário ou não, é patentemente claro que Marx é e permanecerá sendo uma das grandes mentes filosóficas, um dos grandes analistas econômicos do século XIX e, em sua máxima expressão, um mestre de uma prosa apaixonada. Também é importante ler Marx porque o mundo no qual vivemos hoje não pode ser entendido sem levar em conta a influência que os escritos deste homem tiveram sobre o século XX. E, finalmente, deveria ser lido porque, como ele mesmo escreveu, o mundo não pode ser transformado de maneira efetiva se não for entendido. Marx permanece sendo um soberbo pensador para a compreensão do mundo e dos problemas que devemos enfrentar.

Tradução para Sin Permiso (inglês-espanhol) : Gabriel Vargas LozanoTradução para Carta Maior (espanhol-portuguê s): Marco Aurélio Weissheimer